Lendo um texto do Scorsese sobre os filmes de Antonioni, fiquei com vontade de assistir um tipo de filme que para mim é muito definido, sempre presente no cinema independente americano e muito comum em gente como o Antonioni, Godard, Pasolini ou o Fellini. Pra mim, existem alguns filmes desses caras que estendem o tempo e o espaço como se eles fossem infinitos. Sinto totalmente que sou engolido por estas duas dimensões e começo a fazer parte de uma engrenagem parecida com a engrenagem da vida. Há alguns que prefiro mais, como "A última sessão de cinema" do Peter Bogdanovich, "A Noite" do Antonioni, "Elogio do Amor" e "Viver a vida" do Godard, ou então "8 1/2" do Fellini. Em todos esses filmes, sou engolido por um tipo de tédio que não é aquele de final de tarde de domingo, assistindo Faustão ou Luciano Huck, mas um tédio de saber que viver é uma máquina, com um evento atrás do outro, uma engrenagem. Não há causalidade, mas há uma sequência, como nos filmes. Por mais que queiramos dar um Fast Forward, um Pause ou um Rewind, não conseguimos. Não penso ser triste, é apenas entediante.
Para quebrar este tédio, acho que utilizo a arte e minha imaginação, ou então assisto filmes, leio livros e assim por diante. É um certo paradoxo gostar de ver um filme que retratará justamente aquilo que é fixo e imutável em nossas vidas, mas a razão é essa, caso nunca tivéssemos refletido sobre isso, nunca teríamos percebido.
Claro que a reflexão não vem somente dos filmes, a própria vida deve gerar essa reflexão. Sempre imagino como seria se tivesse aquela vida que a minha posição social julga de "simples". Trabalhar, casar, ter filhos, morrer, quase sem ambições, quase sem nenhum bem material para deixar para ninguém, quase sem querer repercutir a minha própria espécie, apenas fazendo isso pela inércia da sobrevivência. Segundo esse meu antigo pensamento, se levasse essa vida, isso nunca me chatearia. Mas faz algum tempo, descobri que isso não existe. Ninguém é simples assim, não importa a vida que tem, qualquer dia, as mesmas coisas viriam à minha cabeça.
A questão é que acabo de entrar na engrenagem da vida que uma vez conheci através destes filmes. Cada vez mais, sinto tédio no dia-dia. No entanto, o tempo e o espaço não se estenderam, como sinto que acontece nesses filmes. Ao contrário, eles se encurtaram. Nisso tudo, minha memória é o que mais me preocupa. Os grandes e extensos momentos ficaram escassos, aqueles que fixam imagens tão boas de se lembrar e belas de se rever. Por isso, quero rever um desses filmes. Para ver se vem uma luz. Devo estar enganado, alguma coisa está errada. Há de existir uma maneira de engrandecer essa minha nova vida que está sendo estranhamente dura de aceitar e acostumar. Preciso descobrir isso logo, tenho certeza que não é nada excepcional. Não pode ser.

3 comentários:
Tanta gente fala desses nomes, os mestres do cinema. E eu conheço tão pouco do trabalhos deles. Preciso tomar vergonha na cara e conhecer mais.
Eu chamo isso de 'minha vida pós trabalho'.
Mais preocupação, menos diversão e mesmo assim as mesmas coisas de antes para serem feitas (em menos tempo).
Você se acostuma sim. Ou então vai continuar vivendo com tédio forever and ever...
Boa sorte na descoberta!
Te gosto!
Hmmmm...Essa explicação é bem mais interessante que a q vc deu no MSN! Quer dizer, na verdade é a mesma, mas aqui tá desenvolvido.
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