sábado, 16 de fevereiro de 2008

O extraordinário

Em "Magnólia", a vida de todas as personagens segue normalmente em um tipo de rotina pesada. Ninguém se torna consciente da própria desgraça no meio da correria. Eu também achava que vivia em algum tipo de desgraça cotidiana há algum tempo. Devia reclamar de muita coisa quase diariamente. Aquilo que reclamava, acho que carregava um pouco de razão e um pouco de bobagem, provavelmente. Coitado de mim, era uma personagem de Magnólia. Sempre quis saber em que tipo de filme é mais fácil se viver, talvez seja mais fácil viver em um musical, que nem a Selma faz em "Dançando no Escuro", mas acho que sempre nos colocamos em um melodrama, mesmo que nossas vidas sejam musicais.
Analisando durante algumas noites deitado em minha cama, cheguei a uma observação sobre a minha vida nessas últimas duas semanas. Estou em uma rotina boa, nada de extraordinário anda acontecendo e durante algum tempo, isso não é ruim. Pois até cheguei à conclusão de que comecei a sentir falta de coisas para reclamar!
As pessoas me perguntam se a vida está boa e se existe alguma novidade, eu repondo: tudo está bem, nenhuma grande novidade.
Mas a insatisfação nos persegue, não? Estou reclamando da falta de reclamações! Não acho que é bem uma reclamação. Afinal, está tudo bem, talvez falte o extraordinário que acontece em "Magnólia", tanto aquele que nos permite enxergar a melancolia da existência quanto aquele que nos faz perceber o fantástico dentro do mundo e das relações humanas. Mas quando isso acontece no pequeno espaço de duas semanas, considero um pouco como umas férias espirituais que devem ter trazido de volta alguma distância que precisava para olhar as pessoas e o que acontece ao redor com mais cuidado. O extraordinário acontece a todo momento, o que nos falta é reconhecê-lo.

*Outro filme bom para reconhecer o extraordinário é "Short Cuts", do Robert Altman, é aquele que inspirou "Magnólia".

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